Conversas de cafetinas

CONVERSAS DE CAFETINAS
Sérgio Maggio
160 páginas
14×21 cm
R$ 31,00
ISBN 978-85-60171-07-1

“Amei Raimundo Temporal, amei Congo de Ouro, amei Pai, amei Sena, que deitava na minha cama, todo bacana”, anuncia a mulher, esparramada em si mesma, 110 quilos de lembranças. “Era um homem gostoso, cabeludo. Parecia um macaco, tinha um perfume que embelezava a gente.”

Essa é Saiana, figura de uma época que torcia as ancas para preservativo, “com camisinha não tem buceta que fique apertada”. Que avisa: “Na minha casa, abaixo de Deus, eu. Abaixo de mim, a polícia.” Tem Nini, que só amou um homem que ficou noivo de outra e agora envelhece ao lado de um que não ama. Tem dona Cabeluda, mulher que amarra a palavra literalmente no fio do bigode. Inaugurou o negócio no tempo em que prostituta usava “vestido meia-perna e sapatos de salto alto” e segue firmona, 30 anos depois, administrando “10 mulheres que usam um taco de short combinando com um taco de blusa”. E Andréa, que capitaneia seu “Cabaré das Donzelas Inocentes” nem tão inocentes assim, porque volta e meia ela fica nervosa e “dá uns tapinhas…. mas nada de violência, coisas de mãe”.

E ainda Gina, Minininha, Juci e Fátima, uma soma robusta de oito cafetinas. Ou “donas de casa”, como elas preferem. Oito contadoras de uma história que seduz o jornalista Sérgio Maggio desde o tempo em que, menino, ele se solidarizava com os ciúmes da mãe diante dos olhares compridos do pai para as misteriosas moças do cabaré. Ou quando, aos oito anos, escondido embaixo da mesa da sala, enchia os olhos com Maria Machadão e as mulheres coloridas do bordel Bataclã, na novela Gabriela.

Sérgio Maggio andou por ladeiras de Salvador e curvas de cidadezinhas do interior baiano para escutar não prostitutas, mas cafetinas, as mulheres no comando do prazer e da dor, administradoras de não-ditos na vida das cidades. Na esquina dessas conversas, às vezes tensas, encontram-se duas mitologias, a do repórter que veio buscar segredos, a das cafetinas que, no vício da profissão, tentam adivinhar que mercadoria agradaria mais ao freguês.

Nesse jogo de esconde-esconde, as verdades assomam nos vãos da prosa, na existência substantiva dessas mulheres, no absurdo do cotidiano que escapa de todo o controle, na vida que elas gostariam de acreditar que comandam, mas que escorrega por entre os dedos. Estão, todas as oito e cada uma ao seu modo, agarradas à possibilidade de reinvenção pela palavra num mundo que se desmancha, cada vez mais incertas do seu lugar. Aqui também a vida se ilumina nos cantos escuros da narrativa.

Eliane Brum

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